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  • Foto do escritorMateus Psi

Por que não sabemos o que queremos?

Atualizado: 18 de jun.

É verdade que o não sentido da vida e a dificuldade de estabelecer contato pleno e direto com aquilo que queremos dela são assuntos que fundamentaram extensas e intermináveis discussões filosóficas ao longo da história da humanidade. Niilistas, Existencialistas, Escolásticos e tantas outras escolas na filosofia se ocuparam, por muito tempo, de pensar sobre o desejo humano e suas expressões; e, ainda mais primordialmente, sobre o por quê se deseja a vida e o que dela desejamos. Diversas religiões e cosmovisões também formularam e conceberam suas próprias teses a respeito do “querer” e qual seria a forma mais adequada de lidar com ele. 

Muitas igrejas cristãs, por exemplo, afirmam que a vida humana existe para cumprir o que quer que essas mesmas instituições dizem ser os propósitos de Deus; e, feitos como somos, à imagem e semelhança dessa entidade, deveríamos lidar com nossos desejos carnais suprimindo-os e desenvolvendo um desejo espiritual de nos "apequenarmos” diante da suposta vontade divina. Deveríamos desejar, simplesmente, servir a esses dogmas. 

O budismo e algumas de suas linhas, por outro lado, fundamentam-se em teses análogas a de Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche (mentor da nova tradição de budismo kadampa), que afirma que “todo ser vivo tem o mesmo desejo básico - ser feliz e evitar sofrimento” (2022, p. 3); e que, uma vez que sofrimento e felicidade seriam estados mentais ou, em outras palavras, partes da mente, a forma de atingir a iluminação, a paz interior genuína e o fim do sofrimento seria por meio da sincera prática espiritual e do controle de sua própria mente - findando qualquer busca de felicidade ou de interrupção do sofrimento a partir de conquistas e situações externas. 

Outras religiões e cosmovisões, da mesma forma, possuem suas próprias concepções a respeito do desejo humano e de qual a melhor maneira de lidar com ele. No entanto, e sem entrar no mérito de qual dessas concepções mais agrada a cada um de nós, compartilho uma experiência que, provavelmente, é comum a muitos, se não a todos os que possam vir a ler este texto: a sensação de não saber, em algum momento de sua própria existência, o que se “quer da vida”; junto com a sensação de que estamos apenas passando por ela; sobrevivendo e assumindo responsabilidades para garantir nossa subsistência. 

É muito importante destacar que essa experiência possui um caráter coletivo pela forma como a sociedade se estrutura: no Patriarcado, como denunciou Reich, o dever compulsivo substituiu o trabalho naturalmente orientado - e esse pode ser entendido como qualquer ação humana sobre o mundo que vise à sobrevivência e a realização de um desejo genuíno humano. Essa substituição compulsória da qual Reich falava em suas obras tem a ver com uma estrutura política e social que nos impele a não nos auto-gestionarmos enquanto sociedade, e a aderirmos à lógica produtivista do capitalismo - porque a sociedade se estrutura de tal maneira que não nos restam outras opções: trabalhamos em algum emprego, não porque seja necessariamente algo de nossa vocação e de onde obtemos prazer genuíno desempenhando aquelas tarefas, mas porque pagamos pela água que bebemos, pelo lugar em que moramos, pela comida que comemos e pela roupa que vestimos.

 Em vez de trabalharmos de maneira naturalmente orientada para produzir tudo isso e sanar nossas necessidades fisiológicas e desejos íntimos, como parecem fazer diversos povos originários, quilombolas e indígenas; vivemos isolados da Natureza e nosso trabalho se torna cada vez mais alienado - em outras palavras, o propósito de nosso trabalho se torna cada vez mais estranho e sem sentido para nós, e seu resultado final não é algo que desejamos em primeiro lugar, mas algo que produzimos para ganhar um salário. Em 1844, Marx já apontava como a estrutura social estava transformando o trabalho em um processo estranho e desprovido de sentido ao trabalhador: 


 “A exteriorização do trabalhador em seu produto tem o significado não somente de que seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas, bem além disso, que existe fora dele, independente dele e estranha a ele, tornando-se uma potência autônoma diante dele, que a vida que ele deu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha.” (1844, p. 81)


Quem nunca teve a sensação de ir todos os dias ao trabalho para realizar tarefas que não são de seu interesse pessoal e cujo produto final sequer lhe parece relevante, considere-se privilegiado. Sejam planilhas, tabelas e gráficos, ou serviços prestados a algum público, produção de bens e produtos ou qualquer outro tipo de trabalho contemporâneo, sempre há margem para o não-sentido. Porque, em primeiro lugar, não há muito espaço no Patriarcado para que nos auto-gestionemos e trabalhemos apenas segundo nossas motivações pessoais genuínas. E, além disso, há sempre o imperativo da renda e da necessidade de subsistência em uma civilização cada vez mais descolada da Natureza.

A questão do trabalho, portanto, na minha opinião, é uma expressão central - um grande sintoma - da relação que o Patriarcado impõe aos indivíduos com o seu próprio “querer”: uma relação de desconexão, de impossibilidade de satisfação plena e de falta de expressão de desejos genuínos. 

Toda a educação no Patriarcado, inclusive, suprime o contato com nossos desejos e nos ensina a ser pouco espontâneos e a aderir facilmente à autoridade e à ordem social estabelecida. Isso fica muito claro quando pensamos em frases populares como “criança não tem querer”, “A vida não é justa”, "arrume um trabalho que te dê dinheiro, amor e vocação não pagam as contas”, entre outras. O que toda essa dinâmica nos ensina é que é preciso suprimir o que queremos para que possamos nos adaptar à sociedade. Mas, se perdermos de vista completamente o que queremos fazer e quem queremos ser, o que nos resta na vida?

O desejo está intimamente ligado à nossa identidade, ao nosso Eu, a quem somos e a como atuamos sobre o mundo. Não por acaso, na vegetoterapia, o “querer” vem do peito, que é, na visão da somatopsicodinâmica, a sede do Eu. Essa concepção se justifica a partir da análise funcional do peito: é no peito que ficam estruturas como os pulmões, que fundamentam a maior troca energética entre nosso organismo e o meio - a respiração. É através dos alvéolos, brônquios e outras estruturas do sistema respiratório que absorvemos oxigênio para dentro de nosso corpo e expiramos gás carbônico para o meio. É também no peito que se localiza o coração, que bombeia sangue para todo o corpo e garante a oxigenação de todos os tecidos - garantindo também a integridade e a preservação do eu. No peito também está localizada uma glândula chamada timo, onde ocorre a maturação de linfócitos produzidos pela medula óssea em linfócitos T, células de defesa que identificam células invasoras (que ameaçam a integridade do organismo) e as combatem; delimitando o eu em relação ao mundo, ao exterior. Além disso tudo, é a partir dos músculos deltóides, entrelaçados à musculatura do peito, que se acoplam à altura do peitoral nossos braços e mãos - que, não coincidentemente, são estruturas fisiológicas cuja função mais clara está em garantir nossa ação sobre o mundo: a possibilidade de trabalhar!

O querer e o trabalho são tão intimamente relacionados à constituição do eu que, não coincidentemente, boa parte de adoecimentos físicos e psíquicos estão relacionados à perda da capacidade de contato com o próprio querer: o dever compulsivo de que falava Reich está na base de quadros como o burnout, em que o trabalho mecânico e desprovido de sentido e produz uma situação de estresse crônico, estafa e irritabilidade no trabalhador, que passa a ter dificuldades em desempenhar suas funções. A depressão, que acomete onze milhões de pessoas no Brasil (segundo dados de 2023), tem profunda relação com o alto índice de desemprego e a impossibilidade da população atuar no mundo de maneira satisfatória e espontânea.

Esses tipos de estados patológicos não existiriam se houvessem bases sociais para que nosso querer - fundamentado em um afeto genuíno e um interesse real em direção a uma ação - se expressasse em um trabalho naturalmente orientado e dotado de sentido para nós; em vez de sermos coagidos a trabalhar em um serviço alienante para não morrermos de fome.

De qualquer maneira, apesar das dificuldades estruturais que o Patriarcado impõe a todos nós, a terapia pode ser uma importante via para estabelecer contato com as coisas que espontaneamente desejamos e queremos vivenciar e fazer. E em algum momento do processo terapêutico, se quisermos construir modos mais saudáveis de vida, todos precisamos entrar em contato com aquilo que genuinamente queremos ser; distinguindo esse desejo genuíno de ambições meramente sociais que possamos ter.

Estabelecer contato com nosso querer significa se rebelar, intimamente, contra toda a lógica patriarcal e utilitária, sem perder de vista que temos necessidades materiais e de subsistência nessa sociedade. A clínica, portanto, é fundamentalmente política - apesar de não ser partidária.

 É preciso, para não adoecer, achar o afeto que ancora a nossa ação - antes que nos tornemos mais um navio à deriva. Só assim é possível ter um trabalho ou qualquer ação no mundo minimamente orientada naturalmente - e não por meio da coerção social de desempenhar, de ter que tornar-se algo.

É por isso, também, que a pergunta “Porque você está buscando terapia?” é tão importante na clínica. O que você quer mudar na sua vida? Às vezes a falta de contato com o que queremos é tão grande que é difícil até mesmo nomear o que nos levou até a terapia. Mas achar o afeto que ancora nossa ação de buscar aquele espaço certamente pode nos fornecer um importante parâmetro do que queremos construir em nossa vida dali para frente. No trabalho, nos relacionamentos interpessoais ou em nossa relação consigo mesmo, delimitar o que queremos e o que não queremos é essencial. Enfim, como diria Reich: “Amor, trabalho e conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.” 


Referências bibliográficas:


MARX, Karl. Manuscritos Econômico-filosóficos. 1a ed. São Paulo, Boitempo, 2008.

RINPOCHE, Geshe Kelsang Gyatso. Como transformar a sua vida: Uma jornada de êxtase. 1a ed. São Paulo, Tharpa, 2022.



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